Ariano Suassuna e o teatro popular que encanta o Brasil
Poucos autores conseguem fazer uma plateia rir, se emocionar e pensar sobre justiça ao mesmo tempo. Ariano Suassuna conseguia. Seu teatro tem cheiro de feira, ritmo de cantoria, esperteza de história contada na calçada e uma fé cheia de humanidade. É popular no melhor sentido da palavra: fala com todo mundo, sem pedir licença para parecer “difícil”.

O Nordeste de Ariano Suassuna cabe no palco inteiro
Ariano Suassuna nasceu na Paraíba e transformou o universo nordestino em matéria-prima para uma obra única. Em suas peças, aparecem a seca, a fé, a esperteza popular, os causos, os santos, os coronéis, os bichos, os artistas de rua e aquela inteligência afiada de quem precisa sobreviver com pouco.
Mas Suassuna nunca tratou o Nordeste como “cenário exótico”. Para ele, aquele mundo tinha grandeza, humor, poesia e pensamento. Era um Brasil profundo, cheio de contradições e beleza.
Em Auto da Compadecida, sua obra mais conhecida, acompanhamos João Grilo e Chicó, dois personagens pobres, criativos e cheios de lábia. Eles enganam poderosos, escapam de enrascadas e acabam diante de um julgamento divino. A peça mistura comédia, crítica social e religiosidade popular de um jeito muito brasileiro.
Uma curiosidade interessante: a palavra “auto” vem de um tipo de peça teatral curta, muitas vezes ligada a temas religiosos. Suassuna pega essa forma antiga e coloca nela o tempero do povo nordestino, com humor, rua e improviso.

Cordel, riso e teatro popular brasileiro
Para entender Ariano, vale entender o cordel. A literatura de cordel é uma forma popular de poesia impressa em folhetos, comum em feiras nordestinas. Muitas vezes, esses textos são rimados e narram aventuras, milagres, crimes, romances e histórias engraçadas.
Suassuna bebeu muito dessa fonte. Em vez de escrever um teatro preso a salas elegantes e personagens formais, ele trouxe para a cena a oralidade, ou seja, o jeito de falar e contar histórias do povo. Por isso seus diálogos têm ritmo. Parece que alguém está narrando um causo na nossa frente.
Também há muito do circo e do teatro de rua em suas peças. João Grilo, por exemplo, lembra figuras tradicionais de “enganadores espertos”, personagens que vencem pela inteligência, não pela força. Ele é pequeno diante dos poderosos, mas enorme quando abre a boca.
O mais bonito é que o riso nunca aparece vazio. A gente ri de Chicó dizendo “não sei, só sei que foi assim”, mas também percebe uma crítica. Quem tem dinheiro e poder costuma se safar? Quem é pobre precisa inventar saída para tudo? A peça faz essas perguntas sem virar sermão.

Um contraponto luminoso a Nelson Rodrigues
Comparar Ariano Suassuna com Nelson Rodrigues é uma ótima forma de perceber como o teatro brasileiro é rico. Nelson, autor de peças como Vestido de Noiva e Álbum de Família, olhava para os desejos escondidos, os conflitos familiares e as sombras da classe média urbana. Seu teatro é intenso, provocador e muitas vezes desconfortável.
Suassuna também fala de pecado, morte, culpa e julgamento. Só que o caminho é outro. Ele usa a comicidade, que é a capacidade de provocar riso, e a cultura popular como ponte com o público. Enquanto Nelson costuma abrir feridas em salas fechadas, Ariano leva a conversa para a praça, para a feira, para o terreiro onde todo mundo escuta.
Isso não quer dizer que um seja “mais leve” e o outro “mais sério”. Os dois são profundos. A diferença está no tom e no mundo que cada um escolhe mostrar. Nelson mergulha na tragédia íntima. Suassuna transforma a tragédia em riso, fé e esperteza.
Outra curiosidade: Suassuna também criou, ao lado de outros artistas, o Movimento Armorial, que buscava valorizar a arte popular brasileira em diálogo com formas eruditas. Em palavras simples, ele queria mostrar que rabeca, cordel, xilogravura e cantoria podiam ter a mesma dignidade artística de qualquer grande tradição europeia.

Por que Suassuna continua encantando
O teatro de Ariano Suassuna continua vivo porque fala de temas que não envelhecem: medo da morte, desejo de justiça, desigualdade, fé, amizade e sobrevivência. Só que ele faz isso com leveza, graça e música nas palavras.
Assistir ou montar Auto da Compadecida é entrar em contato com um Brasil criativo, contraditório e cheio de invenção. É perceber que o teatro não precisa ser distante para ser inteligente. Ele pode nascer de uma piada, de uma reza, de um folheto de cordel, de uma conversa na feira.
E talvez seja por isso que João Grilo e Chicó continuam tão próximos de nós. Eles erram, mentem, tremem de medo, improvisam e tentam escapar como podem. São personagens populares, mas também profundamente humanos.

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